O cotidiano afetivo e suas trincheiras

By Pedro (ツ) - ᛈᛖᛞᚱᛟ (@peddrinn.bsky.social)
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O cotidiano afetivo e suas trincheiras

Quero falar um pouco sobre como os sentimentos afetam muito mais o nosso dia a dia do que imaginamos. O meu, pelo menos, é muito afetado.

Tenho passado por uma fase em que a prática da percepção emocional é um dos meus grandes focos e isso tem me feito mudar radicalmente como pessoa. As mudanças não acontecem de maneira abrupta, são lineares, e às vezes podem até parecer senoides com picos e vales.

Hoje eu percebi uma coisa muito interessante. Eu sou uma pessoa que precisa conversar sobre as próprias frustrações, talvez eu seja apenas um ser humano comum nesse aspecto. Mas entendi que, após viver algum momento que entendo como falha própria, o restante das minhas ações por um longo período ficam presas, estagnadas, afundadas no sentimento que tive. Nada mais se desenrola com tranquilidade, tudo fica mais pesado, por assim dizer.

A psicologia provavelmente já tem algo muito bem documentado sobre como os pacientes devem relatar que melhoram significativamente logo após as sessões de terapia, e eu não sou diferente, mas um ponto que eu ignorava nos mais de 10 anos de terapia que fiz foi exatamente como lido com meu emocional de maneira cotidiana e só nos últimos tempos, que tenho me dedicado a isso, tenho percebido o real valor da conversa humana sobre as trivialidades da vida, das coisas que dão errado, principalmente, mas das coisas que dão certo também.

Uma coisa que hoje percebo que me travou muito em fazer milhares de coisas foi justamente não ter pra quem contar alguma coisa que aconteceu no meu dia. Mas, menos dramático que isso, não é sobre ter pra quem contar, é sobre pensar que, para determinados assuntos, X ou Y não é relevante falar com ninguém, pois, no fundo, a verdade é que ninguém se importa. Essa é uma armadilha forte que me fez cair num lugar que só agora estou me dando conta de maneira mais clara, pois já havia entendido esse mesmo problema de outras formas antes. Porém, agora vejo que isso pode até ser verdade, mas a comunicação, nesse aspecto, não tem a ver com a necessidade do outro de escutar e sim com a nossa própria de falar.

Eu pensava que lidava muito bem com isso, mas o que acabo de perceber é que, na verdade, eu não lidava com isso. Eu lidava com as consequências emocionais de não me comunicar, não me expressar e, sendo bem sincero, não lidava nada bem com essas consequências. Mas por que eu pensava que conseguia lidar com isso? Pois eu fugia do sentimento, enterrava ele na trilhonésima camada mental e sentimentos não funcionam assim. Digamos que eles não aceitam desaforos ou não serem tratados de forma adequada. Você vai vivenciá-los de uma maneira ou de outra, não importa o que você pense sobre isso. Quando essa maneira se desencadeia em uma série de sensações, pensamentos e ações que pra você têm outra causa, e podem ter mil causas diferentes, no fim é apenas aquele sentimento que você resolveu ignorar se manifestando e aguardando para ser vivido.

Quero acrescentar outra camada: qual o papel do feminino nisso? Homens são comumente treinados para ignorar os sentimentos e serem mais os racionais e etc., mas é claro, existem vários tipos de homens, mas todos eles, a maioria, acredito eu, passam pela mesma situação. Porém, cada um lida não só com os sentimentos de maneira diferente, mas classifica os sentimentos de maneira diferente e é aí que quero entrar com mais profundidade. Existe o senso comum de sentimentos "de mulher" que um homem não poderia apresentar, mas e como esses homens realmente classificam esses sentimentos e, a parte que mais me interessa aqui, como eles lidam com isso, para além do silêncio?

Apesar de já entender que não é saudável, eu tenho como hábito não revelar as questões que sinto para amigos, quase de jeito nenhum, e se for para alguma amiga, aqui entra uma outra questão-chave. Eu praticamente não tenho amigas. Isso, sim, é um sintoma do machismo e da objetificação que eu fazia das mulheres, porém hoje eu acho que posso considerar que tenho pelo menos uma amiga de verdade. E até então esse número me basta. A questão principal não é essa. A questão principal é que, por mais que eu fale com ela, ou com amigos que já contei sobre as questões cotidianas, é muito difícil contar sobre as frustrações que são altas, que são erros meus e que, no fim do dia, meio que não importam muito pra essa outra pessoa. Penso que seja isso que eu busco numa parceira para ter um relacionamento, talvez seja até isso que eu mais sinta falta do meu antigo relacionamento. Alguém que se importe, porque precisa se importar, afinal a pessoa está se relacionando com você, ela precisa saber o que você sente, como você está lidando com suas próprias questões e etc. Eu queria conversar com alguém que tivesse, quase que por obrigação, que me escutar. Penso que a terapia tem essa dosagem, mas principalmente agora que me vejo de frente com meus sentimentos, com muito mais frequência que antes, e pretendo estar em comunhão com eles, preciso de alguma forma desenvolver relações ou talvez algum tipo de confiança no outro que eu tenho muitas dúvidas sobre a realidade de tudo isso.